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1.12.11

O "Frango tite" de Ferreira Gullar


Faço aqui uma singela homenagem ao maior poeta brasileiro vivo - vivíssimo, diga-se, aos 81 anos - que pela segunda vez levou o Jabuti: uma historinha deliciosa contada por Ferreira Gullar, O Grande, que vem bem a calhar neste sítio. Atenção para o "realismo socialista dos restaurantes da Lapa". E para o "triste" significado de "tite", claro. 


Frango tite


Não tão rara quanto o peru nem tão frugal quanto o ovo, a galinha, comida de domingo, era naquela época o símbolo da fome nacional. Já muito antes de nós, o Barão de Itararé diagnosticara: "quando pobre come frango, um dos dois está doente".
Tenho proposto com certa insistência que alguém escreva, no Brasil, a sociologia da galinha, ou pelo menos defina o papel da galinha na psicologia nacional (sem alusões ao sexo mal definido como fraco). Na biografia dos brasileiros, na alma de cada um de nós, embrulhados aos nossos sonhos e desejos, estão alguns cacarejos, uns batidos de asa, um ovo roubado, uma clarinada matinal...
Mas foi o Sá quem descobriu a saída. Se durante a semana, estávamos condenados ao restaurante do Calabouço, domingo tínhamos obrigação de melhorar o cardápio. E o problema não era simples, pelo menos para mim. No Calabouço, com uma carteira falsa de estudante, eu pagava dois cruzeiros por refeição. Pagamento simbólico evidentemente. Bendito simbolismo que eu, na literatura, tratava com desprezo. Mas, aos domingos, não havia Calabouço: tinha-se que enfrentar mesmo o realismo socialista dos restaurantes da Lapa.
Mas o Sá descobriu que no China da Riachuelo, perto dos Arcos, servia-se aos domingos por preço de banana um prato que se chamava, sem rodeios, frango com arroz. E era verdade. Esse prato restaurou em nós a perdida dignidade dos domingos de outrora, iluminados sempre por uma galinha-ao-molho-pardo ou um frango-com-farofa-de-miúdos... Era com outra alma que a gente agora lia os suplementos dominicais, almoçava média com pão e manteiga, e esperava a noite. Sim, porque o frango era servido precisamente às sete horas da noite. E a freguesia, naturalmente, era grande. A partir das 6 e meia começava a chegar o pessoal que, como quem não quer nada, espiava para as mesas e ficava por ali - pois o frango era pouco e ninguém queria correr o risco de degradar seu domingo. Às 7 em ponto, o garçom anunciava:
- Atenção, pessoal, vai sair o tite!
Seguia-se o rebuliço das últimas disputas e arranjos: "Dá licença de botar uma cadeira a mais na sua mesa?" "Mas já tem cinco." "Se não, vou perder o frango..." "Deixa o rapaz sentar." E lá vinha, em pratos feitos que fumegavam por cima de nossa cabeça, na bandeja do Jacinto, o frango com arroz, vendido inexplicavelmente por cinco pratas. Também, quinze minutos depois, quando mal acabávamos de devorar o último farelo do frango, já se ouvia, irônica, a voz do garçom:
- Acabou o tite! Agora só sopa de entulho!
O "tite "... Por que "tite"? Aquele domingo saí com essa pergunta na cabeça. O Jacinto não dizia "vai sair o frango", dizia "vai sair o tite"...
Manifestei minha estranheza aos companheiros de quarto e o Sá, que lia Novos Rumos, retrucou com desprezo:
- Curiosidade pequeno-burguesa. Vê se algum operário, podendo comer frango por cinco pratas, vai-se preocupar com a gíria do garçom!
O Sá tinha razão. Tratei de esquecer o problema e fomos, mais uma vez, ao frango do China, ao tite com arroz. Mas eu vivia os meus últimos domingos de glória, pois, pouco mais tarde, deparei com o Jacinto tomando hidrolitol, no Largo da Lapa, e não resisti.
- Tite é o seguinte - explicou-me ele. - O senhor Shio, dono do restaurante, faz as compras da semana todo domingo na feira do Largo da Glória. Os frangos e galinhas são trazidos em engradados, se machucam na viagem e alguns chegam na feira morre-não-morre. O senhor Shio, sabendo disso, vai logo perguntando pros feirantes: "Tem galinha tite? Tem galinha tite?" E assim - continuou Jacinto - compra tudo o que é galinha triste que há na feira. Umas estão apenas tristes, outras já morreram de tristeza, mas o chinês compra assim mesmo. E justifica: "Vai moler mesmo!" - disse Jacinto, soltando uma gargalhada. Eu ri também, mas sem achar a mesma graça. Dentro de meu estômago, acabara de se converter em tristeza a euforia de tantos jantares dominicais, a cinco cruzeiros velhos, velhíssimos. Quando contei a história ao pessoal, o Sá me fuzilou com os olhos "Você é um estraga-jantares!"
Fez-se um longo silêncio naquele anoitecer de domingo.
O Sá falou finalmente: - Bem, vamos à sopa de entulho!

28.9.11

Arroz de alho da Alcione


Passei algumas horas com Alcione, na casa dela, e foi indescritível. Só lamento não ter provado da sua comida... A fama de cozinheira de mão cheia desta maranhense carismática como poucos corre o mundo -- até Gilberto Gil elogiou. Diz Alcione que gosta mesmo é dos pratos típicos de sua terra natal. Conversamos um pouco sobre isso, ao final da entrevista que fiz. E aproveitei - não sou boba nem nada - para pedir uma receita. Mas vou descartar o formato tradicional "ingredientes-modo de preparo" aqui, vale mais a pena ler as palavras da própria Alcione. Fala, Marrom!

Eu - Me dá uma receita, Marrom...

Marrom - Claro, receita de quê? Tem uma farofa de Neston que eu faço muito boa...
Eu - Farofa de Neston, não. Você já falou dela na televisão, eu vi no youtube.
Marrom - Ah, então tá, vou te dar uma receita de arroz de alho, gosta de alho?
Eu - Adoro!
Marrom - É para quando você chegar cansada do trabalho e quiser comer alguma coisa rápida. Aí tem aquele arrozinho guardado... Você pega uma panela ou frigideira, bota manteiga, umas três cabeças de alho picadas e estala dois ovos ali dentro. Quando está para ficar bom, você joga o arroz ali dentro, mexe rápido e apaga o fogo. E come. Não tem coisa melhor! Come e corre para o abraço! A gente pede perdão para Deus. Quando o ovo estiver ficando no ponto que você gosta de comer, joga o arroz. Não pode deixar muito mole. Vem com o gosto do alho, da manteiga e do ovo. Só com aquilo você janta. 
Eu - Sensacional... E o que você mais gosta de comer? Aquele prato que só de pensar já dá água na boca? 
Marrom - A coisa que mais gosto de comer é cuxá com arroz branco, ou arroz de cuxá. E torta de caranguejo, que é o melhor prato do mundo! Minha especialidade é torta de caranguejo, ninguém faz melhor do que eu nessa família. Eu sou imbatível. Agora, minha irmã faz uma torta de camarão seco e um bolo de aipim que ninguém faz melhor. Aquele bolo molhadinho, sabe? Hummm...  



2.3.11

Magret de pato e outras coisinhas da Manu Zappa






Fiz uma aula de magret de pato com a querida chef Manu Zappa, no Prosa na Cozinha! Em tom super informal, descontraído, uma turma de oito pessoas aprende as receitas deliciosas que ela prepara de três a quatro vezes por semana. Ontem à noite foi a minha vez.

Manu é craque - e fã de batatas, como eu. Cozinha com jeitão espontâneo, ensina como quem quer aprender, sem verdades absolutas. Nem barrigão de oito meses a impede de qualquer coisa. Aprendemos a fazer magret de pato, com uma tal couve frita - ou crocante, para ficar mais chique - que, eu disse ontem mesmo, ganhou o prêmio revelação da noite, e purê de pesto. De sobremesa, um suflê de chocolate facílimo e delicioso.
Ou seja, sensacional. Valeu, Manu!

Quem quiser saber mais, clique aqui.
Eu recomendo!

29.3.10

Câmara Cascudo II

"Há muitos anos discutiu-se no Brasil se o esporte estava deseducando a mocidade ou era o alheamento às fontes da literatura clássica, dando equilíbrio, medida, clareza, disciplina.

Para mim, um dos fatores negativos é a decadência nacional da refeição doméstica, o abandono dos pratos tradicionais no cardápio de certos grupos sociais mais fornecedores de rapazes e moças aos colégios e às universidades. Não é o alimento em si, na potência intrínseca de sua substância, a fonte isolada da força vital. São os elementos psicológicos decorrentes da refeição. Cada vez há menos refeição e mais comidas, fáceis, encontráveis, vendidas nos botequins elegantes ou nas cantinas universitárias. A alimentação das classes jovens fundamenta-se numa série de sucedâneos e de "provisórios", de coisas supletivas, aperitivais, respondendo à fome sem eliminá-la. Há comida sintética, indicando na orla do menu o número de calorias contido. Prever, pelo dinamômetro, a intensidade da energia útil suficiente para abraçar a noiva. (...) Perde-se a continuidade na padronização do cachorro de qualquer temperatura e do sandwich de qualquer coisa. Do sapiens ao qualunque.

"História da alimentação no Brasil" (1967-1968)
pp.350-351, Global Editora, 2004

25.3.10

Câmara Cascudo I

Decidi que vou postar 'pílulas' de Câmara Cascudo, que pretendo serem diárias, vejamos. A leitura de "História da Alimentação no Brasil" (1967/1968) deveria ser obrigatória para qualquer brasileiro em formação escolar. Por acaso, hoje acordei irritada com a ideia de que dietas curam tudo, de que a salvação dos males do mundo está na mudança alimentar (estar irritada com a ideia não quer dizer que eu não concorde em parte com ela, que fique bem claro). O que me incomoda mesmo é o fundamentalismo. E adoro o tom muitas vezes irônico de Cascudo. Vamos lá, à página 366 da edição da Global, 2004:

"Aloysio de Castro, num discurso aos doutorandos [em Medicina, provavelmente?] de 1924, resume a sátira de Tristan Bernard aos imprevistos dietéticos. O homem gordo quis emagrecer. Exercícios. Dieta. Ficou com as pernas finas. Banhos de lama. Dieta. Resfriou-se. Laringite. Dieta. Curou-se mas o estômago tornou difícil a digestão; falta de apetite. Dieta gástrica, corretora. Voltou a engordar."

Ah, sim, parênteses: a foto é de uma barraca de orgânicos, com direito a 'grama' para curar todos os males, no inesquecível Borough Market, em Londres.

23.3.10

Quem é que não gosta de sardinha? (e de Amália?)




"O carapau e a sardinha"
Amália Rodrigues

De uma sardinha fresquinha
Diga-me lá quem não gosta
Salpicadinha, viva da costa
Assim vivinha,
Chegadinha de Cascais
Prateadinha
De comer, chorar por mais

Quem é que não gosta
Quem é que não gosta
De uma sardinha
Salpicadinha da costa?

Quando se ouve o pregão
Vê-se logo a mesa posta
Comer à mão, como se gosta
Muito gordinha
No pão saloio a pingar
Uma buchinha
Prá sardinha não queimar

Juntei uma petinguinha
Com um lindo jaquinzinho
Ela assadinha, ele fritinho
O casamento naquele dia se fez
Foi o padrinho o verdinho português

Quem é que não gosta
Quem é que não gosta
De uma sardinha
Salpicadinha da costa?

O carapau e a sardinha
Qual é o mais popular?
É a sardinha, não há que errar
Dos jaquinzinhos
Bem fritinhos, gosto eu
Mas a sardinha
É um petisco do céu

Quem é que não gosta
Quem é que não gosta
De uma sardinha
Salpicadinha da costa?

20.3.10

Brigadeiros de saudades

Os brigadeiros são para você, minha doçura, minha irmã querida, para lembrar os incontáveis que já dividimos metendo nossas colheres na mesma panela.
Bel, a sua camiseta diz 'LOVE'.
Eu também.

27.10.09

A tasquinha do Chico

Fofo, não? Não tem nome, é simples assim: "Almoços e jantares". Acho que meu amigo Chico Silva, se cá estivesse, sentaria ali, pediria uma bagaceira e passaria horas a divagar sobre a alma lusitana, os poetas, o fado, o bacalhau, e as sardinhas, e os tremoços, o Tejo, e o Mondego, a saudade... ah, sim, e o Santos, o Benfica, o Santos, o Sporting, e o Santos...

20.10.09

Para Eduardo, o Pecado da Gula


Uma foto de presente para meu amigo Eduardo 'Claret' Marini, que é, ele sim, um verdadeiro doce, e escreveu sobre este blog e esta que vos fala palavras que nenhum dos dois jamais mereceram. Claret, para você, um delicioso pastel de nata - que, você bem sabe, no Brasil chamamos 'pastel de Belém', mas cá em Portugal só há um com este nome, aquele feito em Belém mesmo e sobre o qual já falamos aqui. Os outros todos, os 'de nata', são 'genéricos'. E para acompanhar, um trecho maravilhoso de um texto de D. Duarte, "Leal Conselheiro", extraído do livro "A arte de comer em Portugal na Idade Média", um clássico do professor Salvador Dias Arnaut (Colares Editora, Sintra, Portugal). Lá vai, prepare-se:
"Do Pecado da Gula
Sumariamente em quatro partes o pecado da gula se ode partir. Primeira, que hora razoada, conveniente ou ordenada para comer não quer aguardar. Segunda, que o ventre de comer ou beber deseja sobejamente encher. Terceira, que viandas e beberes estremados (sic) cobiça sempre usar. Quarta, que sobejamente com grande folgança e glória faz comer e beber para elo perceber e aparelhar. Da primeira nasce desobediência, e apartada conversação de boas pessoas, e isto por não guardar dias de jejuns, bons conselhos e costumes. Da segunda, luxúria e destemperança do entender, e do corpo muitas enfermidades. E para todo o bom saber muita rudeza. Da terceira vem aos religiosos não consentir que vivam na pobreza que prometeram, porque se trabalham de ter com que satisfaçam ao que desejam. E aos que riquezas podem possuir, faz ser pobres, mal as despendendo em custosas viandas e vinhos que bem escusar, se temperados fossem, poderiam. Da quarta vem fazer deus do seu ventre, não havendo tanto desejo continuado pensamento de prazer ao senhor como a ele, e aos gargantões convém não guardar hora conveniente, e sobrejo comer e beber."
Para ler Eduardo Marini, http://blogs.r7.com/eduardo-marini/

15.9.09

Risoto Tricolor

O prato ganhou este nome porque foi improvisado, lembrou Ramiro na última hora, no dia do aniversário do Chico Buarque, torcedor do fluminense - assim como meu amigo Felipe, diga-se, ambos muito queridos, e provavelmente bastante chateados com os últimos capítulos da novela tricolor. Enfim, o risoto, que sem querer virou homenagem, leva salmão defumado, ervilhas e cream cheese - bem pouquinho deste último, está lá mais pela cremosidade -, além dos ingredientes básicos de um risoto, claro - manteiga, cebola, queijo ralado, vinho branco... Foi sucesso aqui em casa.

7.8.08

Pastifício Dell'Amore



Este post é uma homenagem: a minha mestre das panelas, Josi Basso, e a seu marido, e meu melhor amigo, Felipe Pasqualini - Felipones, para os íntimos. Há poucos meses, inauguraram um um lugar, em Curitiba, que já se tornou, para mim, um clássico (no melhor estilo "nunca te vi, sempre te amei", porque eu ainda não conheço, mas já é um dos meus lugares preferidos abaixo da linha do Equador): o Pastifício Dell'Amore (http://pastificio.blogspot.com/). Felipe, o maior entusiasta e colaborador que este blog já conheceu, e Josi abrem sua própria casa para amigos e eventos fechados. Ali, neste lugar encantado, produzem massas deliciosas, a quatro mãos - enquanto entre as pernas, um gato passeia lenta e silenciosamente. (Por perto, a cachorrinha Frida, que ninguém jamais esquece). Sim, é tudo muito romântico mesmo. E o melhor: tem muita comida boa no meio desta história. E para eles, amigos verdadeiros de quem morro de saudades, dedico alguns versos simples e doces de Luiz Melodia:

Eu vou fazer, amor
Um ninho
Com amor, muito carinho
Pra você se abrigar
Eu vou lhe dar amor tão puro
Que maior amor eu juro
Você não vai encontrar
E entre nuvens de beijos
Seus desejos serão meus
Amor, vou lhe dar e é tão sincero
Que você, amor, espero
Não vai querer me deixar
E quando no fim da estrada
Minha amada
O inverno tristonho chegar
Mais amor
Eu vou ter pra lhe dar
Faça dos meus braços o seu ninho
Tenho, amor, muito carinho
E estou a lhe ofertar.

6.8.08

O piquenique da Marcelle






Piquenique! Minha amiga Marcelle trocou alguns emails com os amigos e decidiu comemorar o aniversário com um piquenique no Parque Lage - já falei aqui do Café du Lage, justamente o post que fez a querida aniversariante ter esta idéia. Desta vez, a farra seria no gramadão atrás do belíssimo casarão (que, eu também já disse aqui, serviu de cenário para "Terra em Transe", de Glauber Rocha), com champagne, comidas gostosas e crianças - quer coisa mais deliciosa que isso tudo junto? Sorte a nossa (aliás: dela, de nascer; e minha, de morar) viver nesta cidade maravilhosa - perdoem, eu babo mesmo, não resisto... são só dois anos de Rio, ainda acho certas coisas inacreditáveis... Enfim, como este punhado de amigos - e é impressionante como Marcelle só reúne gente boa - não é fraco, champagne, vinho e tal fizeram nossa alegria ainda antes do meio-dia de um domingo típico do inverno carioca, com sol, céu azul e um friozinho muito leve. Foi delicioso, gente. Vamos repetir?
E atenção para as legendas das fotos: lá em cima, um bolo lindo que chamou a atenção de todos durante boa parte da festa; o champagne, no gelo, claro; Marcelle e as crianças, pouco antes de soprar as velinhas e, abaixo, o bolo de aniversário, já bastante prejudicado; para acabar, Clara e Marina na toalha e o clima da bagunça.

3.6.08

O Jardim Botânico, Dom João VI e sua galinha mourisca





As fotografias foram tiradas em diversos pedaços do Jardim Botânico, que no próximo dia 13 de junho completa 200 anos. Em 1808, o JB, que dá nome ao bairro onde está, na zona sul do Rio de Janeiro, nasceu com o nome de Jardim de Aclimação, criado por D. João, então príncipe regente e, mais tarde, Dom João VI. Foi a "casa" de Tom Jobim, que, diz a lenda urbana, era o único sujeito da cidade com passe livre: podia entrar e sair do parque a hora que bem entendesse. Lá dentro, depois de caminhar bastante (é imenso), pare para tomar um cafezinho no Café Botanica, que de espetacular tem apenas o fato de estar lá dentro (e precisa mais que isso?), em meio às árvores. Em homenagem a Dom João VI, o homem que amava frangos ("era capaz de devorar seis por dia, três no almoço e três no jantar", diz J.A. Dias Lopes em A canja do imperador) e incluiu ingredientes brasileiros na dieta de sua corte ("banana, feijão preto, carne-seca, algumas pimentas e farinha de mandioca, entre outros", ainda segundo Dias Lopes), reproduzo aqui a receita de Galinha Mourisca, que tirei do capítulo sobre Dom João no mesmo A Canja - livro que eu adoro, aliás, e já falei dele aqui.

Viva o Jardim Botânico! Viva Dom João VI!

Galinha Mourisca

Ingredientes
1 galinha de cerca de 2 quilos
100 gramas de toucinho cortado em pequenos pedaços
30 gramas de manteiga
1 cebola grande fatiada
150 ml de vinho branco
50 ml de suco de limão
6 ovos escalfados (abertos e cozidos em água quente)
6 fatias de pão caseiro
salsinha, hortelã, louro e coentro, picados a gosto
cebolinha-verde e canela moída para salpicar
sal e pimenta-do-reino moída a gosto

Preparo
1. Limpe a galinha e corte-a em pedaços, pelas juntas
2. Aqueça o toucinho e a manteiga numa panela de fundo grosso. Coloque a cebola e espere murchar. Junte a galinha, as ervas e a pimenta. Deixe-a dourar com a panela destampada e acrescente o vinho. Mexa bem e, quando o álcool evaporar, adicione o limão, o sal e a água, o suficiente para cozinhar a galinha.
3. Em uma panela com água quase em ponto de fervura, abra os ovos, poucos por vez e deixe-os cozinhar por uns três minutos. As claras devem ficar apenas opacas e as gemas, moles. Retire com uma escumadeira.
4. Coloque as fatias de pão em pratos fundos e, por cima, arrume a galinha. Disponha os ovos, polvilhe com a canela, a cebolinha-verde e sirva.

15.5.08

Seu Gomes: desde 1935 dando de comer e beber a boêmios do Rio de Janeiro







A festa de 92 anos de Seu Gomes (que apaga as velas na foto lá em cima) foi tão sensacional quanto seu próprio balcão, o do Bar e Restaurante Urca, sobre o qual já falei aqui antes (a vista é simplesmente esta que aparece na última foto). Seu Gomes é um espetáculo, exatamente como seu restaurante-boteco também. Por isso, a festa, em pleno meio-dia de terça-feira, foi um sucesso, com direito a caricatura de Chico Caruso, que com seu vozerão também cantou... Caruso ("Te voglio bene assai..."). A música, aliás, não parou: forró, chorinho e até uma especial feita em homenagem ao aniversariante (a letra segue lá embaixo). Sem falar, é claro, no bacalhau com arroz de brócolis, nos bolinhos e pasteizinhos e na casquinha de siri comestível, o novo must do lugar. Mas o que mais interessa neste post não é nada disso, e sim a história deliciosa deste Gomes carioca: está no ramo dos botequins desde 1935 (!), sempre no Rio de Janeiro, e tem alimentado boêmios com petiscos deliciosos (meu preferido é o pastel de camarão) durante todos estes anos. Há 35 deles eferece aos seus frequentadores a vista que você vê na última foto (uma das que Fernanda Thedim, da Veja Rio, fez para mim. Valeu, gata!). Ele não merece um "Viva!"? Pois então, para o Seu Gomes tudo! É pique, é pique, é pique, viu, minha gente? Noventa e dois...
Agora, deixo vocês com as linhas de meu amigo Ivan Accioly, assessor de imprensa do Bar Urca.
Fala, Ivan!

"Até chegar, há 35 anos, ao bairro da Urca, Seu Gomes rodou a cidade. Foi dono do Botafogo Bar Sport Carioca, na Rua São Clemente, de 1936 a1939. De 39 a 1945, foi para o Mercado Municipal da Praça XV. Na sua busca pelas melhores oportunidades foi para a Praça da Bandeira, na Rua Barão de Iguatemi, onde um grande bar e restaurante abrigava sete mesas de sinuca. Manteve esse negócio por 17 anos, até 1962, quando cruzou novamente a cidade e voltou ao bairro do primeiro emprego: Ipanema. Lá comprou um bar na Rua Visconde de Pirajá 550. Em pouco tempo o ponto ficou conhecido como o Botequim do Gomes, famoso pela cerveja super gelada e os pasteizinhos. A explosão imobiliária fez Seu Gomes vender o ponto em 1972. No local foi erguido pelo empreendedor Sérgio Dourado o Shopping 550. Em busca de um lugar tranqüilo e bonito Seu Gomes encontrou na Urca o espaço que procurava.
Agora completa 35 anos no comando do Bar e Restaurante Urca, que gerenciou com sócios sem abandonar o objetivo de, como manda a tradição, botar os descendentes no negócio. Hoje, são três gerações de Armandos no trabalho diário, mas o comando permanece com o primeiro deles. Seu Gomes lidera 17 empregados fixos mais seis temporários, que são incorporados a cada fim de semana. Atento às oportunidades, há dez anos, já com 83, comandou a criação do restaurante na sobreloja do bar e proporcionou aos clientes uma alternativa ao tradicional atendimento com bebidas e petiscos que faz sucesso na mureta da Urca. Para o novo espaço, optou por um cardápio que tem os peixes como atração e faz a harmonia entre a cozinha brasileira e portuguesa."

19.2.08

Ai, Comandante!

O que será que ele gosta de comer, alguém faz idéia? Em Cuba, comi 'Moros y Cristianos' até não poder mais, uma espécie de baião de dois, arroz com feijão, tudo misturadinho... Vou procurar uma receita para homenagear Fidel.

Bueno, adiós, comandante. E que tudo continue às mil maravilhas na sua MaravIlha.

24.1.08

Viva a batata!


Eu sabia que um dia nossa querida batata receberia o reconhecimento que merece (hehehe), embora todo reconhecimento seja pouco... A batata foi escolhida pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação o alimento do ano de 2008, na tentativa de chamar a atenção da população mundial para a sua importância na agricultura e segurança alimentar. Leia mais aqui: http://www.potato2008.org
E viva a batata!

2.1.08

Feliz Ano Novo!

Uma caipirinha para bindar o Ano Novo!
Anastácia deseja sinceramente que, em 2008, não falte comida na mesa dos brasileiros, sem demagogia! E aos que podem escolher o que botar no prato, recomenda: experimentem, provem, arrisquem! Na minha lista de intragáveis nacionais (da qual até o jiló já fez parte, iguaria que hoje aprecio como poucas) só constam agora a dobradinha e a buchada de bode, mas este ano estou disposta a reverter o quadro! E tome sal de fruta para qualquer eventualidade...

Gostaria de uma mesa imensa para comemorar 2008 com os que foram amigos, leitores, parceiros, incentivadores, colaboradores, apoiadores e tudo mais deste Anastácia na feira, que completará um ano em 14 de janeiro e só tem me dado alegrias. Como será impossível oferecer uma caipirinha a cada um dos que eu gostaria, escrevo os nomes de alguns aqui embaixo, como forma de homenageá-los. Se esqueci de alguém, por favor, mil perdões. A cabeça ainda vive resquícios das comemorações de final de ano...

Felipe Pasqualini, Josi Basso, Bel Garçoni, Ramiro Alves, Juliana Vilas, Eduardo Marini, Chico Silva, Cristiana Vieira, Elvira, Cleusa Coelho, Claudia Carvalho, Juliana Rocha, Mari Filgueiras e Rosinha, Carol Zappa, Carlos Braga, Paloma Cotes, Fernando Morais, Ricardo Linhares, Marina e Chico Caruso, Rodrigo He-Man, Tiça Magalhães, Daniel Kaz, Alexandre Werneck, Leandro Valverdes, Cyro Viegas, as mineiras Fabiana Gonçalves, Josie Jeronimo e Lívia, Dolores Orosco, Reinaldo Morais, Fe Thedim, Rozane Monteiro, Cecília Garçoni, Haroldo e Marinês Rocha, Marcelo Gazzaneo, Alexandre Arruda e Marcelle Justo, Octacílio Freire, Telma Sanchez, Flávio 'Vitcho'e as pequenas Helena e Isadora.

Obrigada, gente boa! E Feliz 2008!

29.11.07

Ô, Claret!

Venho há muito adiando escrever sobre Eduardo Marini (no Jobi, já sem foco). Porque a tarefa não é coisa fácil. Penso em escrever algo que esteja à altura do que ele merece ler. Algo que chegue perto, resvale, se aproxime um pouco que seja, pelo menos uma linha de um livro que um dia ele virá a escrever. Não há nada que meu amigo Claret (este é só para os íntimos) faça que eu não ache graça. Eu me rendo. Ao seu Mengão, seu Benfica e seu Feijão. Nunca houve.

22.10.07

Barreado da Pachorra (e do Cyro)





Entrei na sala de meu escritório temporário para ser apresentada aos novos colegas de "redação". Reconheci um sujeito sentado e já fui mandando aquele "Eu conheço você de algum lugar...". Ah, foi rapidinho para a gente descobrir: a velha e boa Curitiba, onde passei bons e deliciosos anos da minha vida, surgiu na conversa. Depois algumas cervejas, Providências (aquela que se toma no boteco), confissões trocadas e eis que aquele sujeito simpático até demais para um curitibano (nascido em São Paulo, como eu, mas curitibano) virou meu "amigo de infância". No último domingo, o malandro levou o último pedaço do meu coração e ganhou meu apreço de vez: preparou um Barreado, assim mesmo, com letra maiúscula, a comida típica do litoral paranaense. Sensacional. Quem provou, amou. O Cyro - Cyrose para os íntimos e não pergunte de onde vem o apelido porque ele vai conseguir te provar que vodca vai bem com qualquer coisa - tem talento com as panelas. O meu barreado ele não vai provar. Primeiro, porque estou com vergonha do pobrezinho, e segundo, porque dá uma preguiça só de pensar em encarar a cozinha para isso... Como bem disse nosso cozinheiro no texto-receita que segue aí embaixo (uma das mais preciosas colaborações que este blog já teve), é preciso pachorra.
O que está em itálico é meu.

"Barreado com pachorra

Há várias formas de se fazer o barreado, prato tradicional do litoral paranaense. O cozinheiro sempre pode dar seu toque pessoal no preparo do rango. Eu sigo a receita da (minha) tia Raquel, que há mais de 20 anos pilota panelas de barro com maestria. Dela, além do interesse pelo fogão, herdei a paciência necessária para conduzir longos processos culinários. Então lá vai:

Ingredientes (para seis mortos de fome, segundo a tia)
· Um quilo de músculo e um de acém, cortados em cubo;
· 200 gramas de bacon magro picado (magro mesmo, sem gordura e sem o couro);
· 2 cebolas médias,
· 1 pimentão verde, pequeno;
· 1 maço gande de cheiro verde, sem coentro!;
· 1 ou 2 colheres de cominho puro, moído (cuidado, o excesso deste tempero “afoga” o prato);
· 2 colheres de sal, inicialmente. No decorrer do cozimento pode-se pôr mais;
· 1 pimenta vermelha dedo de moça, sem semente. Na falta dela, vai uma malagueta, não será heresia;
· 3 a 4 folhas de louro e 2 colheres de chá de pimenta do reino.

Mexe um pouquinho, cozinha um pouquinho
Pique todas as verduras e forre o fundo da panela com elas. Acomode as carnes e o bacon por cima e polvilhe os demais temperos. Não se preocupe com misturas que a coisa vai longe. Cubra com água até o nível da carne.
Reza a tradição e as lendas que o cozimento do barreado deve ser feito em panela de barro, cuja tampa é lacrada com uma goma à base de araruta, dentro de um buraco com brasas. É que no século 19 não havia panela de pressão em Morretes, Antonina e adjacências (cidades do litoral do Paraná, onde o prato nasceu). Qualquer fogão básico e aquela sua velha panela de cozinhar feijão dão conta do recado com muita honestidade.
Cozinhe na pressão entre 40 minutos e uma hora, em fogo baixo. Abra a panela, mexa a carne e reponha a água, se estiver faltando. Repita este procedimento até que a carne fique totalmente desfiada. Em geral, isso acontece de três a cinco vezes, em um intervalo de uma hora para cada “abre” de tampa.
Após a primeira fervida na pressão coloque uma chapinha de amianto sob a panela. Se não tiver, use a forma de pizza, o efeito é o mesmo. Use uma colher de pau pesada ou um soquete de feijão para acelerar o desmanche da carne, que aos poucos se mistura ao molho. Esta alquimia produz o barreado e justifica as horas gastas na frente do fogão.
Cheiro de matar a clientela
Nessas alturas do campeonato o cheiro do grude já estará matando a platéia presente ao convescote. Deixe o pessoal ainda mais esfomeado, sirva uma cachaça de boa qualidade. Comida de litoral sem a “marvada” não tem graça.
Enquanto a turma beberica, deixe o barreado cozinhar com a panela aberta por mais uma meia hora pra apurar o caldo. Acerte o sal e pronto!

Sirva com...
Banana da terra cozida com um pouco de açúcar. A tia orienta comprar as de casca bem preta, com cara de podre. Essas é que são boas. (Banana prata in natura também vai muito bem) Um arroz temperado com alho e cebola e uma boa farinha de mandioca branca completam a arquitetura do prato. Pimenta a gosto.
Diz um ditado “parnanguara” (ou seja, nascido em Paranaguá) que “quando o barreado fica bão, ocê morre de cumê, mas quando ele fica ruim, ocê morre de desgosto”. É isso aí. Se você teve a pachorra de chegar até aqui é porque tem talento pra coisa."